O formato dos corpos também diz muito sobre as preferências da época. Uma mulher de quadris estreitos e barriga chapada seria considerada infértil em alguns períodos, enquanto, para os homens, o tamanho do pênis já foi considerado proporcional à burrice.
Qualquer representação da deusa Vénus, por exemplo, vai refletir o padrão de beleza feminino da época, porque ela é a deusa da beleza e do amor carnal. Se compararmos uma Vénus renascentista de Florença, como a do Botticelli, com uma Vénus do Ticiano, que é de Veneza, com uma Vénus do Rubens (foto abaixo), veremos a diferença do que em cada época se achava belo. A nudez feminina só aparece se adequada ao padrão de beleza do período e do local.

Reprodução/Galleria degli Uffizi
O NASCIMENTO DE VÊNUS (1485) – A famosa Vénus do pintor renascentista Sandro Botticelli é uma resposta do artista ao mito greco-romano que descreve o nascimento da deusa. O Renascimento relacionava-se com o realismo e a temas cristãos, o que fez a pintura ser considerada erótica e pagã. O corpo de Vénus é anatomicamente improvável para o padrão da época, mas mantém os tons claros para inspirar pureza.

Reprodução /Taschen
VÉNUS DE URBINO (1538) – O veneziano Ticiano levou o nú renascentista, até então caracterizado pela romantização da figura humana na natureza, para a intimidade de um quarto. Não se sabe ao certo quem foi a modelo que posou para o pintor, mas aqui a deusa romana do amor e da beleza é retratada como uma mulher consciente de sua sexualidade, uma quebra da mística. Ao mesmo tempo, a pintura mostra a visão conservadora da época, quando a mulher se reservava ao marido e às funções domésticas. O destaque para o ventre, símbolo da fertilidade, reforça sua função reprodutora. A obra pode ser vista na Galleria degli Uffizi, em Florença.

Reprodução/RMN-Grand Palais/Musée d’Orsay
MULHER NUA COM UM CACHORRO – Em 1861, o francês Gustave Coubert retratou a sua amante Léontine Renaude em “Mulher Nua com um Cachorro” (dir.). Para os curadores do Museu d’Orsay, a função do cão na pintura é representar a fidelidade e cumplicidade entre os amantes. Léontine é retratada com pés sujos e cabelos desgrenhados, algo incomum nas musas da época. A pintura é considerada respeitosa por causa de seus tons suaves. Uma comparação é outra pintura de Coubert, “As Banhistas”, de 1840 (esq.) com tons mais realistas. A pintura de Léontine seria considerada pornográfica para a época se tivesse a mesma tonalidade.

Reprodução
DOIS NÚS EM UMA PAISAGEM EXÓTICA – Nesta pintura de 1906, o francês Jean Metzinger mostra como o cenário da época era de transição dos períodos clássicos para a modernidade. O pintor ainda carrega alguma influência da contemplação impressionista do fim do século, ao mesmo tempo que se permite a experimentações com o Fauvismo e o Cubismo. Aqui, o que importa não é a figura nua em si, mas as experimentações de cores e formas.

Reprodução/MET
A VELHA CORTESÃ (1910) – Considerado um artista experimental por não usar as técnicas neoclássicas de seus contemporâneos, Rodin não desenhava rascunhos para fazer esculturas. Era famoso pela sua boa memória para ilustrar cenas, o que se desenvolveu nos trinta anos em que rabiscou centenas de nus femininos e cenas eróticas em aquarela.

Reprodução/MET
NÚ (1925) – Considerado um dos primeiros modernistas de Portugal, Eduardo Viana mostra em “Nú” que os pêlos nas axilas já foram tratados com mais naturalidade do que nos dias em que vivemos.

Reprodução
NU CUBISTA Nº 1 – Nesta pintura de 1915, época em que era diretamente influenciada por seus estudos na Europa, a brasileira Anita Malfatti faz sua versão cubista de uma modelo nua. Dois anos depois, sua primeira exposição não seria bem recebida no Brasil, onde a arte clássica expressionista ainda era a favorita dos galeristas.

RMN-Grand Palais/ Musée d’Orsay
OLYMPIA – Com “Olympia”, em 1865, Manet volta a ser polémico entre os conservadores franceses pela sua “profanação de Vénus”, numa versão em que é rotulada de prostituta.

Reprodução
A ABDUÇÃO DE PSIQUE – A pintura de Proud’hon é inspirada no romance “O Asno de Ouro”, do escritor Apuleio. Numa das cenas, é retratado o nascimento de Psique e a recepção criada pelos cupidos. A mulher retratada é considerada como a de maior beleza e delicadeza de 1808.

Reprodução/Musée du Louvre
A LIBERDADE GUIANDO O POVO (1830) – A obra de Delacroix, símbolo da Revolução Francesa, mostra a personificação da deusa da liberdade, num marco do Iluminismo e Romantismo. Era considerada vulgar para os classicistas, por mostrar as axilas e contrariar o ideal de que a pele feminina precisa inspirar pureza. Os seios à mostra têm como objetivo não só diferenciá-la das outras mulheres, mas criar uma atmosfera de força superior. Só entrou no Louvre em 1874.

Reprodução
NÚS DE TARSILA – O primeiro nú da brasileira Tarsila do Amaral foi um estudo realizado em 1921 (esq.), um ano antes da famosa Semana de 1922, quando passou a inspirar-se nos ideais modernistas. As referências cubistas, unidas à cultura brasileira, geraram os nús mais famosos do modernismo nacional, com obras como “Nú” (centro, 1923) e “Abaporu” (dir., 1928).

Reprodução/Wallraf Museum
TARDE PREGUIÇOSA – François Boucher pintou Louise O’Murphy, costureira parisiense, em 1751. Alguns historiadores de arte dizem que o quadro foi uma forma de ela oferecer os seus serviços sexuais ao rei Luis 15, com quem teve uma filha bastarda anos depois.

Reprodução/Musée du Louvre
A GRANDE ODALISCA (1814) – A pintura de Jean Auguste Dominique Ingres marca uma transição entre o Neoclassicismo e Romantismo. A concubina escolhida pelo pintor causou polémica pela falta de realismo nas formas do corpo feminino, consideradas desproporcionais.

Reprodução
FRINÉ EM FRENTE AO AREÓPAGO – Em 1861, o francês Jean-Lean Gérôme pintou o julgamento de Friné, famosa história sobre uma prostituta da Grécia antiga que foi colocada em tribunal pelo próprio amante, e a despe em frente ao júri. Assustados com a sua beleza, recusam-se a culpá-la e dizem que não podem condenar uma serva de Afrodite.

Reprodução/Lady Lever Art Gallery
O TEPIDÁRIO (1881) – O holandês Lawrence Alma-Tadema retratou a cena de um tepidário (um tipo de sauna romana) na pintura de mesmo nome. A ideia era usá-la como propaganda de um sabonete, mas foi considerada muito erótica para os consumidores holandeses. Agora está na Lady Lever Art Gallery, em Londres.

Reprodução/Museo Del Prado
LA MAJA DESNUDA (1800) – Para muitos, a grande arte de Goya era mostrar os pêlos púbicos de forma discreta. “A Maja Nua” tem também uma versão vestida e mostra uma interação da personagem com o espectador, algo raro no romantismo da época. Foi criada para o primeiro ministro espanhol Manuel de Godoy, que tinha uma coleção secreta de nús.

Reprodução
BLOND GIRL, NIGHT PORTRAIT (1980-85) – Na década de 1980, o pintor alemão Lucian Freud mostrou o realismo decadente de modelos e cenas reais no seu quarto, sem glamourizar a modelo.





